Eu faço faculdade no centro da cidade. Quem mora em São Paulo sabe que o centro é a casa de várias pessoas. Na verdade não é preciso morar em São Paulo pra saber o que é isso.
Sempre que desço a rua em direção ao metrô, vejo vários mendigos. Sempre fica um senhor negro sentado na frente da igreja balançando um copinho com algumas poucas moedas. Sempre tem um homem de um 20 e poucos anos, que ou está dormindo, ou está falando coisas sem sentido, ou está pedindo comida.
Tem algumas travestis e algumas poucas crianças (ali onde passo).
Uma vez uma menina que aparentava ter a minha idade, com roupa curta e suja me pediu a minha coca "ô tia, me da isso aí", e eu dei. Virei as costas e ela despejou a coca no chão. Estava estampado na cara dela que ela não estava em si. Estava drogada, como muitas pessoas que vejo ali.
Algumas vezes vejo uma criança linda. É um menino loirinho. Que sempre olha pra gente com cara de triste pedindo dinheiro. É de partir o coração.
Eu não tenho coragem de dar dinheiro, pois sei que a maioria ali não vai usá-lo pra comprar comida. Vai usar pra comprar bebidas ou drogas. E por mais que minha vontade diga para eu dar os 2 reais que tenho no bolso, não dou, não tenho coragem.
Eu queria não pensar assim, mas é a realidade.
Se eu pudesse, levaria sempre um prato de comida pra cada uma daquelas pessoas que ficam ali mendigando. Infelizmente não posso.
Consegui perceber que muitos ali são ofensivos enquanto outros são extremamente inofensivos.
Certa vez eu estava esperando o ônibus, e tinha um senhor de aparentemente uns 50 anos., talvez ele fosse bem mais novo, não sei. Ele chegava em cada pessoa e falava alguma coisa que eu não conseguia entender.
Foi a hora que ele chegou em mim e disse algo do tipo "Meu pé tá machucado, não tenho como ir ao médico, você tem alguma coisinha pra me dar?" Na verdade, não lembro se tinha ou se não tinha. Se eu tinha, não dei pelos motivos que disse antes. Enfim, eu disse que não tinha. E ele gritou "SAI DA MINHA FRENTE AGORA, SOME DAQUI". Nossa, como fiquei com medo daquele homem. A primeira coisa que passou na minha cabela foi "Nossa, ele vai tirar uma faca e vai me matar". Então ele desceu um pouco e ficou olhando pra minha cara. Eu deveria estar branca de medo dele. Vi que ele estava subindo de novo. Então ele chegou perto de mim e disse "me desculpa, não queria falar daquele jeito com você", e eu disse "tudo bem", e ele foi embora, olhando para trás.
Muitas pessoas iriam adquirir raiva ou medo dos mendigos em geral diante dessa situação. Eu sinceramente fiquei com medo. Evito passar perto de mendigos.
No último dia de aula, vi uma cena que quase me fez chorar. Era duas meninas negras, bem arrumadinhas até, com aparência limpa, dormindo atravessadas na calçada. Elas estavam com a cabeça de frente uma para a outra, uma com a mão na cabeça da outra. Talvez vocês se deitem assim com seus namorados, as meninas com suas amigas, com seus pais. Não sei o que aquelas meninas eram uma da outras, talvez fossem irmãs, namoradas, amigas, mas isso é o que menos importa. Tentei imaginar o porque delas estarem ali. Mas não consegui chegar a uma conclusão. Infelizmente são N as possibilidades. Quem me dera se só fosse uma. Seria bem mais fácil resolver o problema. Depois fiquei pensando no futuro daquelas meninas. Talvez não fossem moradoras de rua, mas se estavam ali, não era porque estavam tomando sol. O que vai ser daquelas meninas?
Nós andamos pelas ruas e vemos pessoas a mendigar. De duas uma: Ou ficamos com medo, ou com pena.
Na verdade nós deveríamos ter pena de nós mesmos. Nós que temos um cobertor para nos proteger do frio, um teto para nos proteger da chuva, comida para nos proteger da fome e somos nós que temos família e amigos por poerto para nos proteger da solidão, sempre temos algo para achar que nossa vida é uma merda. Talvez porque tenha acabado a trakinas, porque a mãe brigou, por não ter recebido uma promoção no trabalho ou porque uma barata entrou na cozinha. Isso sim é digno de pena. Pena porque quem não tem o que reclamar ainda reclama, mesmo sabendo da realidade lá fora.
Nós temos medo porque NÓS mesmos fazemos com que eles nos deixem com medo. Nós que somos crueis, nós que vamos na praça da Sé, na Candelária atirar nos meninos. Nós que colocamos fogo neles. Nós que vendemos drogas. Nós que não damos oportunidades.
Mas o que me dói mesmo é falar tudo isso, querer fazer alguma coisa e não fazer absolutamente nada.
"Mas eles estão nas ruas porque querem"...
E nós somos hipócritas. Na verdade não vou generalizar pois muitos podem se ofender.
A hipócrita aqui sou eu, você e talvez você.