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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Senhor prefeito,


Meu nome é Evellyn e tenho 9 anos. Moro aqui e altinhos com a minha mãe e meu pai e meus dois irmão né. Estudo naquela escola da rua que é embaixo do parque das orquideas né. 
Hoje minha prefessora perguntou o que nós quer ser quando crecer eu quero ser uma adevogada, uma medica que salva vida ou prefessora de matematica porque adoro matematica.
Gostaria de ser adevogada porque teve um dia que nós visitou o zologico e eu quiz faser amisade com uma menina que era de outra escola né aí ela dise que não queria ser minha amiga porque ela tinha cabelo lizo e não gostava de quem tinha cabelo enrrolado e porque estudava em escola particolar porque a mãe dela era adevogada. Aí quero ser adevogada pra colocar minha filha na escola particolar né.
Gosto do medico tambem porque ele salva vida quando conssegue. No hospital perto da minha casa uma mulher morreu porque nao consseguiu medico minha mãe disse que era porque não tinha muito medico naquele hospital.
fiquei com dó do medico tambem porque o medico nao tem cupa. é muita gente pra ver ne?
Ai e eu quero ser prefessora de matematica porque eu gosto de matematica e porque uma vez minha prefessora ficou um monte de dia sem ir na minha escola né aí a gente ficamos sem aula porque nao tinha outro prefessor. Aí eu quero ser prefessora pra conseguir dar aula pros aluno que o prefessor não vai pra escola.
Eu ia esquesser mais eu queria ser cosinhera tambem por causa que as veses tem pouca merenda na escola né aí eu acho que é porque a cosinhera não gosta de cosinhar e eu gosto de ver minha mãe cosinhar. ela não gosta mas eu gosto do arroz com farinha que ela fas é muito bom sabe e as veses eu fico com muita fome ne e tenho que comer arroz com farinha porque as veses não tem carne. só tem quando a patroua da casa que ela trabalha da né.
Prefeito to escreveno essa carta pra voce porque minha prefessora disse que eu vou consseguir ser prefessora, medica ou adevogada se o senhor deichar.

Essa carta foi pega no lixo da prefeitura. Uma das secretárias do prefeito não acreditou que ele pudesse tratar com tanto descaso essa situação e resolveu entregá-la para o jornal.
O prefeito por sua vez, alega que não foi ele que jogou a carta no lixo e que se emocionou ao lê-la.



-Larissa de Freitas


quinta-feira, 10 de março de 2011

Se beber..

Julho. O casal finalmente conseguiu tirar férias no mesmo mês, junto com a filha deles.
Pegaram as malas e as colocaram no pequeno celtinha vermelho.
O pai foi verificar se o gás e o registro de água estavam desligados e se as janelas e portas estavam devidamente fechadas.
Enfim, estavam prontos para viajar, coisa que não faziam a anos, por falta de tempo e dinheiro.
Resolveram ir para o litoral, pois seria uma viagem curta.. cerca de 50 minutos sem trânsito na rodovia.
A criança de 7 anos nunca tinha visto o mar. E o caminho inteiro ela falava:
-Papai , você vai nadar comigo, né?
-Mamãe, tá chegando? Eu quero brincar na areia que nem a Flávia falou que brincou com a irmã dela!
-Mamãe, eu trouxe a minha bóia da Pequena Sereia pra nadar!
Pena que o pai não podia olhar pra trás para ver o brilho nos olhinhos dela, afinal, ele estava dirigindo e não podia desgrudar o olho da estrada. 
Ele viu que faltavam 7 Km para chegar ao destino e disse:
-A gente tá chegando meu amor! Você já vai poder ver a praia! 
_______

Uma senhora estava como sempre, sentada em sua poltrona assistindo ao jornal da tarde:
- Um acidente aconteceu hoje, as 14h na rodovia que dá acesso à cidade. Dois carros se colidiram.
 Segundo testemunhas, a  Ranger preta estava aparentemente  muito acima do limite de velocidade, ziguezagueando entre as duas pistas, quando perdeu o controle e bateu horizontalmente na parte traseira de um Celta vermelho. 
Uma criança de 7 anos morreu.
De acordo com a Polícia Rodoviária, o motorista da Ranger estava bêbado, e no momento, está com os pais da criança em um hospital. Eles não correm risco de vida.


-Larissa de Freitas




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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ele era diferente?

Aquela mãe amorosa finalmente levou seu filho ao parque pela primeira vez.
Sentou no banquinho protegido pelas sombras das árvores e deixou o pequenino de 7 anos correr livre pelo gramado.
De longe ela ouviu as outras crianças:
-Nossa, que menino feio!
-Nossa, o que ele tem no rosto?
-A, já sei, é aquela doença de retardado. Minha mãe sempre fala isso!
A mãe do garotinho foi correndo tirar ele de lá.
Mas antes que ela chegasse até ele, uma mulher se aproximou e disse:
-Não quero seu filho perto dos meus!- E foi embora.
A pobre criança não entendeu o que estava acontecendo, mas percebeu que a mãe estava desolada!

Contudo, ela não desistiu de divertir seu filho e o levou novamente ao parque..
-Você não percebeu que seu filho nunca vai ser normal como os meus filhos e todas essas crianças que estão aqui? Ele tem Síndrome de Down, ele não vai aprender como eles, não vai falar como eles, terá muitas doenças ao decorrer dos anos e vai viver menos! Não tente fazer com que ele seja amiguinho das crianças normais, isso só vai fazer mal, porque como você sabe, ele não será igualmente feliz!
Mas antes que a mãe do menino abrisse a boca para se defender, a criança com Síndrome de Down pegou uma flor do chão, beijou, puxou a saia da mulher e disse: 
-Flor- Entregando a flor para ela com um sorriso enorme.

O final dessa história? Eu não sei. Seria de uma certa hipocrisia minha dizer que a mulher tenha mudado sua opinião e atitude após o ato da criança com Síndrome de Down. Infelizmente as coisas não são fáceis assim.
Dizem que com um pequeno gesto nós podemos mudar o mundo, mas nós nunca conseguiremos fazer isso se as pessoas não se deixarem mudar.
Convido vocês a refletirem..

Se você estivesse para ser mãe ou pai, e soubesse antes do nascimento que seu filho tem Síndrome de Down,  responda com sinceridade, o que você pensaria em um primeiro momento?




-Larissa de Freitas

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Infância perdida, futuro incerto.

Aquela menina suja estava perambulando pelo centro da cidade.
-Tio, tem um trocado para me dar?

Ela tinha 15 anos e estava com olhos vermelhos.
A hora passando, e em sua cabeça ela estava caminhando sem rumo, mas automaticamente, todas as noites ela tinha rumo certo.
Finalmente conseguiu ter a vista do paraíso dela. Aquele lugar repleto de substâncias que iriam saciar psicologicamente a fome que sentia.
As duas calçadas estavam cheias de pessoas de todas as idades. Crianças de 8 anos, adolescentes de 16, adultos de 40 e idosos de 60.
Todos eles estavam fora de si, gritando, procurando.. Revirando o lixo, mas não para comer as sobras, e sim para achar algo que pudesse levá-los ao prazer que procuravam. Prazer este que os impedia de sonhar porque não os deixava dormir.. Que os obrigava a mendigar, mesmo muito deles tendo uma casa pra morar.. Que os tornava agressivos..Que fazia as mulheres se prostituirem.. Enfim, que fazia com que eles se tornassem diferentes do que foram um dia.

A garota se aproximou e começou a ficar abalada com alucinações:
-Para de me vigiar.. Sai..Não vou dividir com você.
Começou a olhar para os lados e mesmo com todas aquelas pessoas em estado lametável, gritando, brigando e perambulando, ela só tinha olhos para o fogo que esquentava os cachimbos.

Colocou a mão no bolso e viu que tinha o suficiente.
-Quero tudo de pedra.
Sentou na calçada e em poucos minutos ela estava no ápice. Coração batendo rápido, suor escorrendo, pupilas dilatadas, tremor e com o bem estar que ficava só na cabeça dela.
Passados 15 minutos ela queria mais, e mais, e mais.. Revirou lixo, chorou, pediu, suplicou.. Conseguiu. A procura pelo crack e seu uso se repetiu pela madrugada.
Aquele corpo raquítico e frágil se degradava a cada minuto.

Amanheceu e ela foi embora.

Chegando em casa, não esperou a mãe abrir a porta. Resolveu ir embora.
- Tio, me dá dinheiro?

Mais cedo ou mais tarde ela estaria na cracolândia novamente.



     -Larissa de Freitas

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Aquele não era o lar dela..

Ela estava deitada refletindo sobre toda sua vida.

Sendo da classe média, ela gastava boa parte das economias dela e do marido em coisas para o filho. Se alegrava em saber que nada faltou pra ele. Ela lembrava de quando ele era uma criança pidona.

Morava em uma casa com o marido, mas infelizmente ele faleceu devido a efeitos colaterais causados pelos cigarrinhos de todos os dias.
Ficou muito solitária, então filho a chamou para morar junto com ele e a mulher. De inicio ela relutou muito, mas a solidão era tanta que ela aceitou. Vendeu sua casa e foi para junto de seu pequeno pidão.

O tempo foi passando, e a nora passou a não gostar da presença dela ali, ainda mais porque ela vivia adoecida com problemas de coração, artrites e ainda por cima começou a desenvolver Mal de Parkinson, e para combatê-lo, ela deveria tomar um remédio que causava sérios efeitos colaterais. Muito dinheiro era gasto com medicamentos ali. 

-Não damos conta de manter sua mãe aqui com tantos remédios a serem comprados, com alimentos especiais.. Se contar que já temos dois filhos e mais um está por vir. Precisamos de um quarto para o bebê.

Com 72 anos, lá estava ela em seu novo lar. O Lar de Idosos, ou se preferirem, asilo.

Nos primeiros 3 meses o filho dela sempre a visitava todo final de semana.
Depois do terceiro mês, ele passou a visitá-la uma vez por mês. E assim continuou por 2 anos.
-Mãe, dessa vez vou demorar um pouco mais pra vir porque a minha esposa quer viajar nessa férias.
Dezembro..Janeiro..Fevereiro..Dezembro..Janeiro..Fevereiro..Dezembro...

-Meu filho não vem mais me visitar?
Não havia resposta.

Lúcida e adoentada ela viveu o resto do tempo amargurada, tanto por ela mesma quanto pelos seus companheiros que possuíam histórias parecidas e muitas vezes até piores.
Sempre que recebia visita de escolas ela ficava feliz e pensava "Como será que estão meus netos?".."Eles devem estar bem, afinal eles se pouparam de cuidar de um velha doente".


Ela vivia muito solitária, mesmo com dezenas de velhinhos perto dela.

Tremendo, ela olhou uma senhora teimosa que tinha optado por viver ali. Ao lado dela, a filha:
-Mãe, você já está aqui a dois anos, volta pra casa. A gente cuida de você!



Algumas lágrimas cairam de seus olhos. Ela virou e dormiu profundamente.
No dia seguinte:
-Mãe? Acorda mãe, sou eu! Mãe? Mãe?




-Larissa de Freitas



sábado, 22 de janeiro de 2011

Na Avenida Indianópolis..

Todos os dias, por volta das sete da noite aquela mulher começava a se arrumar.
Nos dias de frio, colocava um casaco preto que chegava até o joelho e uma bota salto 15, com muitas fivelas. Por baixo dele? Calcinha e sutiã.
Nos dias de calor, tudo dependia. Geralmente ela usava uma das várias saia curtas de couro, fazendo conjunto com qualquer blusinha decotada e chamativa que ela achava no guarda-roupa dela. O sapato era o de menos. Desde que fosse de salto, estava ótimo.
Fazia sempre uma maquiagem forte, não faltava delineador e rímel em seus olhos. As sombras eram sempre coloridas. O batom? Vermelho. Sempre vermelho. 
Já estava na hora de sair. Ela pegou sua pequena bolsa, e dentro, colocou sua identidade, um pequeno canivete, algumas notas de baixo valor caso precisasse de alguma coisa.
Trancou a porta e se preparou para descer os três andares. Na escada não faltavam baratas mortas, cheiro de maconha, paredes mofadas e pichadas.
Ela desceu e enfim saiu daquele prédio horrível.
Andou por 15 minutos e chegou em seu local de trabalho.
Av. Indianópoplis, nove horas da noite.
Suas amigas estavam lá. Estavam SEMPRE lá. A vestimenta era sempre parecida, e o preço também.
Não faltavam travestis, loiras, morenas, ruivas, gordas, magras.. Lá tinha todo tipo de mulher.

O primeiro carro estacionou na frente dela. Era um celta, aparentemente velho:
- Quanto custa?
- R$50,00 meia hora.

E foi assim praticamente com todos os homens que ela atendeu, mas quando um chegava com um carrão, ela cobrava R$80,00 por meia hora.

Já era tarde da manhã, e ela estava terminando seu trabalho com o décimo segundo homem.
Ela já não aguentava mais. Estava sentido nojo daquele cara.
Enfim, ele terminou e ela pôde ir embora.

Ela foi embora daquele motel de esquina, andou por alguns minutos, entrou em uma loja onde todos a olharam torto.
Pagou o que havia comprado, saiu da loja e andou por mais algum tempo e finalmente chegou no prédio onde morava.
Subiu as escadas, abriu a porta.
A garota estava lá, como sempre sentada no sofá velho e vendo TV.

-Filha, comprei a boneca que você queria. Feliz Aniversário.



-Larissa de Freitas